Maus-tratos infantis: como identificar?

De que forma é possível reconhecer e agir ao suspeitar de violência contra crianças

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Maus-tratos infantis: como identificar?

Há alguns meses, o caso do garoto Henry tomou conta dos noticiários televisivos e estampou capas de revistas e jornais. Dia após dia, novos fatos foram sendo assimilados e o desdobramento da história brutal chocou o país. Em especial, as famílias que convivem com alguma criança da mesma idade ou faixa etária próxima a do garoto.

Ainda que a situação tenha deixado a população incrédula, a violência contra crianças e adolescentes é uma realidade mais comum do podemos imaginar e, muitas vezes, está mais próxima do que pensamos. Tal atrocidade resulta em consequências graves e provoca impactos em todas as áreas da vida da vítima, de forma contínua e prolongada. De acordo com matéria divulgada no site de Drauzio Varella, o estudo Inspire, conduzido pela Organização Mundial de Saúde (OMS), em parceria com diversas entidades internacionais, e divulgado em 2016, estimou que, em todo o mundo, cerca de 1 bilhão de crianças e adolescentes de 2 a 17 anos sofreu violência psicológica, física ou sexual no ano anterior à coleta dos dados. O levantamento foi feito em 96 países.

No site consta, também, que o estudo mostra que meninas e meninos que são vítimas de violência, com frequência, são desacreditados ao relatarem o que sofreram. Nesses casos, nada é feito para reparar os danos causados. Ainda segundo o Inspire, mesmo que a violência seja “escondida”, suas consequências vão surgir mais tarde e trazer “sobrecarga difusa, duradoura e de alto custo para crianças, adultos, comunidades e nações”.

Tipos de violência

O “Guia de Atuação Frente a Maus-Tratos na Infância e na Adolescência” divide os maus-tratos em cinco tipos:

Maus-tratos físicos:
uso da força física de forma intencional.
Síndrome de Munchausen por procuração:
quando a criança é levada aos cuidados médicos em decorrência de sintomas e/ou sinais inventados ou provocados pelos seus responsáveis.
Abuso sexual
: é todo ato ou jogo sexual, relação heterossexual ou homossexual, na qual o agressor está em estágio de desenvolvimento psicossexual mais adiantado do que a criança ou o adolescente.
Maus-tratos psicológicos: de acordo com o Guia, fazem parte deste tipo toda forma de rejeição, depreciação, discriminação, desrespeito, cobrança ou punição exagerados, e utilização da criança ou do adolescente para atender às necessidades dos adultos.
Negligência:
é definido como o ato de omissão do responsável em relação à criança ou adolescente em prover as necessidades básicas para o seu desenvolvimento.

A importância do olhar atento dos pais, professores e cuidadores

Como identificar

De acordo com a psicóloga Mariana Danieli Kampa Balbinotti, profissional que atua há 5 anos no Centro de Referência Especializada em Assistência Social (CREAS), a criança sinaliza que está passando por episódios de violência. No entanto, para perceber os sinais, é necessário ter um olhar atento sobre a vítima. “As pessoas que convivem com a criança ou fazem parte de sua rotina, seja um responsável ou educador, podem perceber alteração em seu comportamento ou, até mesmo, ser o escolhido pela vítima para relatar sobre a violência sofrida. A partir da revelação, é dever do adulto prosseguir com os devidos encaminhamentos, caso contrário, estará sendo negligente com a situação, caracterizando uma das formas de violência supracitada”, complementa a profissional.

Em alguns casos, especialmente os de abuso sexual, o autor da violência ameaça a vítima, para que ela não conte sobre a situação, “o que pode resultar em vivências duradouras de violência, como o caso do menino Henry, no qual não houve a revelação espontânea sobre o ocorrido por parte da criança, mas, ainda assim, ela expressava de outras formas seu desagrado em estar na presença do agressor”, afirma.

Embora a criança que esteja sofrendo violência não expresse de forma direta a situação, existem alguns fatores que devem ser levados em consideração e podem dar indícios de que algo está afetando a vida da criança, tais como:

– hematomas recorrentes e em partes diferentes do corpo;
– queixas de dores em locais variados do corpo;
– problemas envolvendo a rotina do sono;
– problemas na fala;
– carência afetiva;
– isolamento social;
– baixo conceito de si mesmo;
– dificuldades na escola;
– transtornos alimentares;
– irritabilidade
– entre outros.

Ainda de acordo com a psicóloga Mariana, é possível extrair da criança informações que dão sinais de violência, mas, para isso, é importante que a vítima se sinta segura e, principalmente, que o adulto não desmereça ou desacredite dela. “É preciso validar toda e qualquer informação trazida pela criança, não se deve questionar, fazer perguntas que induzem a vítima a negar a violência ou, até mesmo, desabonar o conteúdo trazido. É necessário ouvir de maneira interessada, expressar o quanto foi importante a fala trazida e dizer que irá ajudá-la”.

O que fazer?

Ao cogitar a possibilidade, procure um profissional de psicologia infantil ou converse com o pediatra, porque, com a observação clínica, é possível identificar. Além disso, é importante que os casos de suspeita de agressão sejam comunicados ao Conselho Tutelar da respectiva localidade, que dará o devido encaminhamento ao caso. Após averiguação, ainda que exista apenas uma suspeita de violência, é possível entrar em contato por meio do Disque 100. A denúncia é anônima.

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